
Falo agora, de uma poetisa muito importante para nós goianos.
Para quem não conhece e vou dizer...
Que Cora Coralina (Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, 1889-1985) nasceu em Goiás e publicou seu primeiro poema aos 76 anos, embora escrevesse desde moça. Aos 90, foi apresentada ao mercado nacional através de Carlos Drummond de Andrade, que lhe escreveu numa carta: "Admiro e amo você como alguém que vive em estado de graça com a poesia."
* Minha cidade
Goiás, minha cidade...
Eu sou aquela amorosa
de tuas ruas estreitas,
curtas,
indecisas,
entrando,
saindo
uma das outras.
Eu sou aquela menina feia da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.
Eu sou aquela mulher
que ficou velha,
esquecida,
nos teus larguinhos e nos teus becos tristes,
contando estórias,
fazendo adivinhação.
Cantando teu passado.
Cantando teu futuro.
Eu vivo nas tuas igrejas
e sobrados
e telhados
e paredes.
Eu sou aquele teu velho muro
verde de avencas,
onde se debruça,
um antigo jasmineiro,
cheiroso, na ruinha pobre e suja.
Eu sou estas casas
encostadas,
cochichando umas com as outras.
Eu sou a ramada
dessas árvores,
sem nome e sem valia,
sem flores e sem frutos,
de que gostam
a gente cansada e os pássaros vadios.
Eu sou o caule
dessas trepadeiras sem classe,
nascidas na frincha das pedras:
Bravias.
Renitentes.
Indomáveis.
Cortadas.
Maltratadas.
Pisadas.
E renascendo.
Eu sou a dureza desses morros,
revestidos,
enflorados,
lascados a machado,
lanhados, lacerados.
Queimados pelo fogo.
Pastados.
Calcinados
e renascidos.
Minha vida,
meus sentidos,
minha estética,
todas as vibrações
de minha sensibilidade de mulher,
têm, aqui, suas raízes.
Eu sou a menina feia
da ponte da Lapa.
Eu sou Aninha.
(Cora Coralina)





